Tylenol causa autismo? O que a pesquisa realmente mostra
Se voce ja viu manchetes associando Tylenol (paracetamol) ao autismo, voce nao esta sozinho. Essas historias aparecem a cada poucos anos e geram uma ansiedade enorme, especialmente para pais que tomaram paracetamol durante a gravidez. Talvez voce seja um deles. Talvez voce tenha carregado culpa por isso durante meses ou anos.
Entao vamos ser diretos: Tylenol nao causa autismo.
Mas as manchetes tambem nao sao totalmente inventadas. Existe uma descoberta cientifica real por tras delas. So que ela nao significa o que as manchetes dizem. Veja o que realmente esta acontecendo.
O que os estudos encontraram
Varios estudos, incluindo o trabalho de Zerbo e colegas publicado no JAMA Pediatrics (2016), examinaram a relacao entre o uso de paracetamol durante a gravidez e o risco de autismo. Alguns desses estudos encontraram uma correlacao estatistica. Quando pesquisadores analisaram grandes grupos de maes, aquelas que relataram ter tomado paracetamol durante a gravidez tiveram uma taxa ligeiramente maior de filhos diagnosticados com autismo.
Isso parece alarmante. Mas aqui esta a parte que as manchetes omitem: correlacao nao e causalidade. E neste caso, ha uma explicacao clara de por que a correlacao existe.
O problema do guarda-chuva
Imagine que voce fizesse um estudo sobre o uso de guarda-chuvas e se molhar. Voce provavelmente encontraria uma forte correlacao: pessoas que carregam guarda-chuvas tem mais chances de pegar chuva do que pessoas que nao carregam. Isso significa que guarda-chuvas causam chuva? Claro que nao. Significa que guarda-chuvas e chuva tendem a aparecer ao mesmo tempo, porque um e uma resposta ao outro.
O Tylenol funciona da mesma forma. As pessoas tomam paracetamol quando tem febre, dor, inflamacao ou doenca. Elas nao tomam numa terca-feira qualquer de manha quando se sentem bem. Entao o uso de paracetamol e um marcador de uma condicao subjacente, nao a condicao em si.
O que realmente esta acontecendo
A verdadeira historia e sobre o sistema imunologico, nao sobre o medicamento.
Quando uma pessoa gravida tem febre, uma infeccao ou inflamacao significativa, seu sistema imunologico se torna altamente ativo. Essa atividade imunologica envia sinais por todo o corpo, incluindo para o feto em desenvolvimento. Pesquisas sobre o que os cientistas chamam de "ativacao imunologica materna" mostraram que esses sinais podem influenciar sutilmente a expressao genica durante o desenvolvimento cerebral fetal (Zerbo et al., 2016). Nao de forma dramatica, como acionar um interruptor, mas no tipo de pequenos ajustes de tempo que podem moldar como as vias neurais se formam.
O paracetamol aparece nos dados porque e o que as pessoas tomam quando seu sistema imunologico esta ativo. O medicamento esta correlacionado com os eventos imunologicos, nao causando os resultados de desenvolvimento. Se voce removesse o Tylenol da equacao inteiramente, a atividade imunologica ainda estaria la.
Para uma analise mais aprofundada de como os genes e a expressao genica funcionam no autismo, veja nosso artigo complementar: Entendendo o autismo e a genetica: um guia simples para familias.
Voce deveria ter evitado o Tylenol?
Nao. Veja por que.
Febres altas durante a gravidez trazem seus proprios riscos. Febre nao tratada, especialmente febre alta sustentada no primeiro trimestre, tem sido associada a uma serie de preocupacoes de desenvolvimento. Tratar a febre com paracetamol nao e imprudente. E a orientacao medica padrao. E o que os medicos recomendam porque a alternativa -- deixar uma febre alta persistir -- e geralmente considerada mais preocupante.
Se voce tomou Tylenol durante a gravidez, voce tomou uma decisao medica razoavel com base nas informacoes disponiveis para voce. Voce estava tentando cuidar de si mesma e do seu bebe. Isso nao e algo para se sentir culpado.
Por que isso importa alem do Tylenol
A historia do Tylenol e um bom exemplo de um padrao que se repete na pesquisa sobre autismo. Um estudo encontra uma correlacao. A midia transforma em uma manchete causal. Os pais se sentem culpados. A nuance se perde.
Voce vera esse padrao com tempo de tela, com dieta, com estresse, com dezenas de outras coisas. E a estrutura para avaliar todas elas e a mesma:
- O estudo mostra correlacao ou causalidade? (Quase sempre correlacao.)
- Existe uma variavel de confusao que explica a associacao? (Geralmente sim.)
- A descoberta muda o que voce realmente deveria fazer? (Raramente.)
O autismo e principalmente genetico. Um estudo marcante com mais de dois milhoes de criancas descobriu que a hereditariedade representa cerca de 83% do risco de autismo (Sandin et al., 2017). A grande maioria do que determina se uma crianca e autista foi definida pelo seu DNA, nao por qualquer coisa que tenha acontecido durante a gravidez.
O que voce pode fazer agora
Se voce tem carregado culpa por causa do Tylenol, ou por qualquer outra coisa que fez ou nao fez durante a gravidez, veja o que a ciencia realmente apoia:
- Deixe ir. Voce nao causou o autismo do seu filho. A pesquisa e clara sobre isso.
- Olhe para frente. A coisa mais impactante que voce pode fazer pelo seu filho e apoiar o desenvolvimento dele agora. Intervencao precoce, ferramentas de comunicacao e parentalidade responsiva fazem uma diferenca real e mensuravel.
- Seja cetico com manchetes assustadoras. Quando voce vir "X causa autismo", pergunte: isso e correlacao ou causalidade? Quem financiou o estudo? O que outros pesquisadores dizem? A resposta e quase sempre mais nuancada do que a manchete.
Seu filho esta aqui, e maravilhoso, e precisa que voce esteja focado no hoje, nao preso no passado.
Foque no que mais importa
A melhor coisa que voce pode fazer pelo seu filho e dar a ele ferramentas para se comunicar e se conectar. Isso comeca agora, nao depois de voce terminar de se preocupar com o que deu errado (porque nada deu errado).
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Referencias
- Sandin, S., et al. (2017). The heritability of autism spectrum disorder. JAMA, 318(12), 1182-1184.
- Zerbo, O., et al. (2016). Association between influenza infection and vaccination during pregnancy and risk of autism spectrum disorder. JAMA Pediatrics, 170(1), e163609.